LogoPortal POA

Série documental indígena recebe maior aporte público para TV aberta

Obra que retrata o povo Paiter Suruí é contemplada em edital da EBC com mais de 109 milhões de reais

22/04/2026 às 21:45
Por: Redação

A série documental Gente de Verdade, idealizada e conduzida por indígenas do povo Paiter Suruí, foi um dos projetos selecionados pela chamada pública Seleção TV Brasil, da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), recebendo financiamento do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). A produção acompanha o cotidiano e a luta pela preservação da memória e da identidade desse povo, localizado na terra indígena Sete de Setembro, região que abrange os estados de Rondônia e Mato Grosso, na Amazônia.

 

Os recursos destinados ao conjunto de obras contempladas pela Seleção TV Brasil somam 109.889.224,78 reais, conforme anúncio da EBC realizado em fevereiro, após a escolha de 39 projetos pelo edital. Trata-se do maior investimento já registrado no país para o desenvolvimento de conteúdos audiovisuais voltados à exibição em televisão pública.

 

A iniciativa faz parte do Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Audiovisual Brasileiro (Prodav), vinculado ao Ministério da Cultura (MinC) e à Agência Nacional do Cinema (Ancine). O objetivo é ampliar a produção e difusão de conteúdos nacionais, com ênfase em narrativas diversas e representativas.

 

Obra retrata desafios e tradições do povo Suruí

A série de oito episódios, cada um com 26 minutos de duração, foi selecionada na categoria Sociedade e Cultura, que reuniu mais sete produções na mesma linha temática. Gente de Verdade documenta o processo vivido pelo povo Paiter Suruí desde o primeiro contato com não indígenas, ocorrido há pouco mais de cinco décadas, e aborda as transformações culturais enfrentadas pela comunidade.

 

Entre as mudanças relatadas estão o declínio das práticas tradicionais, a crescente influência de igrejas cristãs no lugar dos pajés, o abandono de rituais e a diminuição do uso da língua originária Tupi Mondé entre as novas gerações. Nesse contexto, quatro protagonistas de três gerações — Ubiratan, Agamenon, Celesty e Kennedy — são acompanhados em sua trajetória para proteger a identidade Suruí diante das pressões religiosas, do cotidiano urbano e do impacto das tecnologias modernas.

 

A narrativa da série se desenvolve a partir da descoberta de um acervo produzido por um fotógrafo alemão na década de 1970, durante o período inicial de contato do povo Suruí com o mundo exterior. Essas imagens se tornam o ponto central de discussões sobre recordação, espiritualidade e identidade, levantando questões sobre a possibilidade de resgate desse material sem desrespeitar crenças religiosas e normas tradicionais que proíbem menções aos falecidos.

 

Narrativas indígenas ganham protagonismo na produção

Com direção do cineasta Ubiratan Suruí, que integra o próprio povo Paiter Suruí, e roteiro de Natália Tupi, também indígena, a série se destaca por valorizar relatos contados a partir da vivência direta dos territórios. Essa condução garante autenticidade e centralidade às vozes indígenas ao longo dos episódios.

 

Segundo Ubiratan Suruí, a principal diferença de Gente de Verdade está no fato de os indígenas assumirem a liderança do processo de construção narrativa. Ele afirma que, durante muito tempo, as histórias dos povos originários foram apresentadas por pessoas externas às comunidades. No entanto, neste projeto, são os próprios indígenas que conduzem o enredo, fortalecendo a autonomia, a identidade e demonstrando a pluralidade entre os diferentes povos originários, sempre se apresentando como sujeitos vivos, atuantes e com perspectivas para o futuro, e não como personagens do passado.

 

“Gente de Verdade nasce do nosso próprio olhar. Por muito tempo, as histórias sobre os povos indígenas foram contadas por outros, de fora. Aqui, não. Somos nós que contamos. Quando a gente coloca nossas próprias narrativas no centro, a gente fortalece nossa autonomia, nossa identidade e mostra a diversidade que existe entre os nossos povos. São histórias reais, de agora, longe dos estereótipos. A gente se apresenta como realmente é: povos vivos, com voz, com pensamento, com futuro — não como personagens do passado.”, ressalta.

 

O diretor também ressalta a importância de uma obra indígena ser exibida na TV Brasil, canal público de alcance nacional, por ampliar o conhecimento sobre suas histórias, promover diálogo, respeito e reconhecimento. Para ele, ocupar esse espaço contribui para romper a invisibilidade e fazer com que o Brasil conheça de fato as vozes dos povos originários.

 

Exibição em emissora pública reforça papel social da comunicação

Antonia Pellegrino, presidente da EBC, coordenou a Seleção TV Brasil enquanto atuava como diretora de Conteúdo e Programação. Ela observa que o projeto teria potencial para ser contemplado em qualquer edital, mas os realizadores optaram por inscrevê-lo especificamente para exibição em uma emissora pública.

 

“Esse gesto reforça a relevância da comunicação pública para dar visibilidade a vozes historicamente silenciadas. É um projeto potente que posiciona no centro histórias que por muito tempo foram invisibilizadas e que dá protagonismo a quem vive essas experiências. A série amplia o olhar sobre os povos indígenas com sensibilidade e profundidade, a partir da força do audiovisual em provocar reflexão e ampliar a compreensão sobre diferentes realidades”, comenta.

 

Acervo visual e exposição sobre o povo Suruí

No ano passado, o Instituto Moreira Salles (IMS), localizado em São Paulo, realizou a exposição Paiter Suruí, Gente de Verdade, apresentando 800 imagens captadas desde a chegada das primeiras câmeras à terra indígena Sete de Setembro, nos anos 1970. A mostra oferece um mergulho nas histórias, tradições, relações afetivas, cotidiano e resistência do povo Suruí, estando disponível para consulta no site do IMS.

© Copyright 2025 - Portal POA - Todos os direitos reservados