LogoPortal POA

Família brasileira morre em ataque israelense ao retornar para casa no Líbano

Família foi atingida ao buscar pertences em Bint Jbel; Brasil condenou ataque durante cessar-fogo

28/04/2026 às 23:16
Por: Redação

A família de origem brasileira e libanesa composta por Manal Jaafar, de 47 anos, seu filho Ali Ghassan Nader, de 11 anos, e o chefe da família, Ghassan Nader, de 57 anos, perdeu a vida após um bombardeio israelense ao Sul do Líbano, na cidade de Bint Jbel. O ataque ocorreu quando eles haviam retornado à residência para buscar roupas e pertences depois de deixarem o local às pressas no início do conflito, em 2 de março.

 

Até o momento, os corpos das vítimas não foram localizados sob os escombros da casa, que ficou completamente destruída pela ofensiva. A família havia se refugiado em Beirute, capital libanesa, e aguardou o cessar-fogo, anunciado em 16 de abril, para regressar temporariamente a Bint Jbel. O retorno tinha o objetivo de recolher mais itens pessoais antes do planejamento de voltar novamente à capital.

 

O irmão mais novo de Ghassan, Bilal Nader, de 43 anos, naturalizado brasileiro e residente em Foz do Iguaçu (Paraná), relatou que seu irmão pretendia retornar a Beirute no mesmo dia, mas acabou pernoitando na casa. O bombardeio aconteceu no domingo seguinte, dia 26, enquanto o carro da família estava ligado e com o porta-malas já carregado com as roupas que pretendiam levar.

 

“Quando teve o cessar-fogo, muita gente voltou para casa no amanhecer. Ele ainda esperou sete ou oito dias. Ele falou que ia só juntar as coisas e voltar, só para pegar mais roupa. Ele até estava com o carro ligado, sabe, com o porta-malas já carregado”, contou Bilal Nader.


 

Do ataque também resultou ferido um outro filho do casal, Kassam Nader, de 21 anos, estudante de computação no Líbano, que já recebeu alta hospitalar no dia 28. Existiam ainda outros dois filhos, de 28 e 26 anos, ambos residentes e trabalhadores no exterior.

 

Bilal esclareceu que Ghassan era agricultor de oliveiras e mantinha uma vida pacata e sem vínculos políticos, além de ser muito conhecido por amigos em varias regiões do Brasil, incluindo Foz do Iguaçu, Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo.

 

“Meu irmão é uma pessoa de bem, não tem ligação com nada, não apoia nenhum partido, é uma pessoa bem reservada, bem sossegada. Inclusive, ele tem muitos amigos aqui, em Foz [do Iguaçu], no Brasil inteiro. Tem amigos no Rio de Janeiro, em Minas Gerais, São Paulo. Ele era bem conhecido aqui”, contou.


 

Ele ainda destacou que a área onde o irmão residia não costumava ser alvo dos combates recentes. Segundo Bilal, as cidades mais próximas do front eram as mais atingidas pelos bombardeios e saques, enquanto a vizinhança da casa da família era composta somente por construções civis e moradores comuns.

 

“As cidades mais para frente é onde estavam acontecendo os bombardeios, onde estão roubando as casas. Ao redor da casa dele não tinha nada, só construções civis, com população civil normal”, explicou.


 

A Embaixada de Israel no Brasil foi procurada para se posicionar a respeito do episódio, mas não respondeu até o fechamento da reportagem.

 

De acordo com dados do Ministério das Relações Exteriores, o Líbano reúne a maior comunidade brasileira no Oriente Médio, contabilizando 22 mil brasileiros residindo no país em 2023. O governo brasileiro repudiou os ataques ocorridos durante o período de cessar-fogo.

 

Vínculos com o Brasil e trajetória da família

A família viveu no Brasil por mais de 15 anos, entre 1995 e 2008. Durante esse período, Manal Jaafar teve filhos em solo brasileiro e conquistou a nacionalidade. Ghassan Nader não chegou a obter a cidadania, pois, conforme relatado, estava sempre atribulado com o trabalho no comércio de eletroeletrônicos.

 

O jornalista Ali Farhat, libanês naturalizado brasileiro e amigo de Ghassan, relatou que o patriarca da família era uma pessoa culta, formado em economia e autor de um livro sobre a economia mundial, escrito em árabe.

 

“Ele era muito ativo na comunidade libanesa aqui no Brasil. Ele trabalhava como empresário aqui e também como intelectual. Ele estava tentando fazer alguns estudos, algumas pesquisas e depois ele decidiu viajar para o Líbano para viver com a família dele lá”, contou Farhat.


 

O imóvel da família em Bint Jbel foi totalmente destruído pelo bombardeio israelense.

 

Contexto do conflito e violações de cessar-fogo

A ofensiva israelense violou o cessar-fogo negociado para o Sul do Líbano, o que levou o Hezbollah, organização político-militar xiita, a afirmar que iria responder a essas violações. O Irã também passou a pressionar para que o cessar-fogo contemplasse o território libanês.

 

Segundo a Casa Branca, Israel teria autorização apenas para efetuar ataques considerados de legítima defesa contra o Hezbollah, que fossem planejados, iminentes ou em andamento.

 

O governo de Israel já vinha sinalizando a intenção de ocupar toda a região sul libanesa até o Rio Litani, que fica a cerca de 30 quilômetros da fronteira, e manifestava o objetivo de impedir o retorno da população civil ao local. Bombardeios israelenses destruíram, no último dia antes do cessar-fogo, a última ponte sobre o Rio Litani, a Ponte de Qasmiyeh, isolando completamente a região ao sul, especialmente cidades como Tiro e Sidon.

 

De acordo com o especialista em geopolítica Anwar Assi, tais ações por parte de Israel caracterizam um processo de expulsão dos habitantes, impedindo que civis disponham de qualquer estrutura em suas cidades natais.

 

“O objetivo principal da guerra é a expulsão das pessoas do Sul do Líbano. Por isso que eles destruíram escolas, hospitais, prédios do governo e todas as unidades que poderiam dar suporte ao retorno dos civis. Eles destruíram justamente para que essas pessoas que retornassem às suas cidades não encontrassem nenhum tipo de apoio”, destacou Assi.


 

O governo israelense, por sua vez, afirma que busca estabelecer uma zona de segurança para evitar ataques do Hezbollah.

 

Desdobramentos da guerra entre Israel e Líbano

O início da fase mais recente do conflito entre Israel e o Líbano remonta a outubro de 2023, quando o Hezbollah lançou ataques ao norte israelense em resposta aos eventos na Faixa de Gaza. Um cessar-fogo foi acordado em novembro de 2024, mas não foi cumprido por Israel, que manteve bombardeios ao território libanês.

 

A escalada aumentou após agressões contra o Irã, levando o Hezbollah a retomar ataques em 2 de março, motivado por persistentes violações do cessar-fogo e pelo assassinato do líder supremo iraniano, Ali Khamenei. Em 8 de abril foi declarado cessar-fogo na guerra com o Irã, mas operações militares israelenses continuaram no Líbano, desrespeitando o novo acordo, desta vez intermediado pelo Paquistão.

 

Histórico do confronto e atuação do Hezbollah

A origem da disputa entre Israel e Hezbollah remonta à década de 1980, quando o grupo foi formado para combater a ocupação israelense do Líbano, motivada pela perseguição a grupos palestinos. Após expulsar as forças israelenses em 2000, o Hezbollah passou a integrar o parlamento e os governos libaneses, tornando-se força política relevante.

 

Desde então, o Líbano foi alvo de bombardeios israelenses em 2006, 2009 e 2011, perpetuando o quadro de instabilidade na região.

© Copyright 2025 - Portal POA - Todos os direitos reservados