O Instituto Inhotim, localizado em Brumadinho, Minas Gerais, iniciou neste sábado (25) as celebrações de seus 20 anos de existência com a inauguração de três novas instalações artísticas. As obras que agora enriquecem o acervo são
Contraplano
Dupla Cura
Tororama
Júlia Rebouças, diretora artística do instituto, ressaltou que as três criações convergem para um dos pilares fundamentais do Inhotim: a interconexão entre arte, natureza e educação.
Cada um ao seu modo, vão repercutir o que é esse território, qual a relação do visitante com esse espaço, questões contemporâneas importantes. Elas vão revisitar momentos que muitas vezes estão ocultos na nossa história mais recente.
Rebouças enfatizou que os projetos recém-inaugurados estabelecem um diálogo com o vasto acervo que foi construído ao longo das duas décadas de história do instituto.
São trabalhos que se articulam com esse enorme texto que está sendo posto aqui há 20 anos. Cada obra é uma ideia nova que a gente adiciona a esse texto que vai escrever a narrativa do Inhotim.
A obra
Contraplano
O título da obra sugere um reflexo da paisagem que foi alterada pela atividade mineradora. A artista mineira Lais Myrrha expressou seu desejo de incentivar uma reflexão sobre a relação da arquitetura com a paisagem, o tempo, a natureza, as montanhas e a mineração.
Até que ponto as tecnologias modernas também influenciaram nessas formas de construção? A topografia, as cavas de mineração, como isso aparece nesse desenho da obra? Vai depender muito do repertório de cada visitante.
Paola Prates, psicóloga de 29 anos residente em Belo Horizonte, que fazia sua quarta visita a Inhotim, teve seu primeiro contato com o trabalho de Lais Myrrha.
Achei uma obra muito interessante, porque está posicionada próximo à mineração e eu acho que ela dialoga muito com isso. É uma obra que causa conforto porque, quando se está aqui dentro, você sente o frescor e o acolhimento, mas, ao mesmo tempo, você também olha para a mineração e lembra o que ela é capaz de fazer.
A Galeria Mata, uma das construções pioneiras do Inhotim, acolhe
Dupla Cura
A curadora Beatriz Lemos esclareceu que o nome da exposição faz alusão a um "pacto espiritual" que a atravessa. Segundo ela, o caráter dual, associado à devoção a São Cosme e São Damião, "manifesta-se no entendimento de que o fortalecimento individual é indissociável do bem-estar comunitário".
Dalton Paula revelou que a reflexão sobre a memória é um dos aspectos que mais o atraem em seu trabalho.
Aqui a gente vai se deparar com obras de 1999, com questões iniciais, e obras feitas no decorrer do tempo que têm um aprofundamento. Eu vejo como uma espécie de oráculo que fiz desse passado e aponta possibilidades de presente e de futuro. Quando a gente mostra ao público, principalmente, as futuras gerações, é algo muito importante.
Marcos Soares, um engenheiro de som de 40 anos, morador da capital mineira, que já visitou Inhotim seis vezes, foi conferir o trabalho de Dalton Paula.
Curti muito os desenhos, as pinturas, a expressão gráfica dele é bem rica. O processo de construção da arte dele é bem interessante de acompanhar. Abre uma nova forma de vida que eu nunca teria a chance de vivenciar se não fosse vendo uma exposição como essa do Dalton.
Próxima à obra
Contraplano
Tororama
Conforme explicado pelo curador Deri Andrade, o nome da instalação é uma expressão presente no conto
A Terceira Margem do Rio
O trabalho de Davi está totalmente relacionado ao Rio São Francisco, a partir de uma pesquisa voltada para sua família que mergulha nesse rio. É um projeto completamente imersivo, que traz vídeo performance e uma paisagem sonora.
Davi compartilhou que provém de uma linhagem de lavadeiras, pescadores, marceneiros e mestres carranqueiros.
A permissão do que eu faço vem por meio desse curso d'água que é o Rio São Francisco e da energia da minha mãe que morreu afogada em 2013. Esse ambiente que criei é de onde eu venho, da comunidade à beira do rio, do meu pai pescador.
Ana Paula Vieira do Nascimento, irmã de Davi, de 36 anos, visitou a instalação e sentiu que ela resgatou memórias de toda a vivência familiar desde a infância.
Nossa infância foi sempre dentro do rio. Somos barranqueiros e me remeteu muito à memória da nossa mãe que está presente nessa exposição.
O Instituto Inhotim está localizado no município de Brumadinho, a 60 quilômetros da capital Belo Horizonte. A organização é uma entidade sem fins lucrativos, que se mantém por meio de doações de indivíduos e empresas, tanto diretas quanto através de leis de Incentivo à Cultura (federal e estadual), além da venda de ingressos e da organização de eventos.
Sua concepção inicial remonta à década de 1980, idealizada pelo empresário mineiro Bernardo de Mello Paz, e foi efetivamente fundado em 2006, em uma antiga fazenda com solo rico em ferro. Sua localização estratégica, entre os biomas da Mata Atlântica e do Cerrado, e as paisagens deslumbrantes que se estendem por 140 hectares de área de visitação, proporcionam aos visitantes uma experiência singular que integra arte e natureza. O acervo conta com cerca de 1.862 obras, criadas por mais de 280 artistas de 43 países, exibidas tanto ao ar livre quanto em galerias. O Instituto também abriga um Jardim Botânico com mais de 4,3 mil espécies botânicas raras, provenientes de diversos continentes.