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Inhotim comemora 20 anos com três novas obras em Brumadinho

Lais Myrrha, Dalton Paula e Davi de Jesus Nascimento apresentam instalações que exploram memória, natureza e cultura afro-brasileira no maior museu a céu aberto da América Latina.

26/04/2026 às 19:33
Por: Redação

O Instituto Inhotim, localizado em Brumadinho, Minas Gerais, iniciou neste sábado (25) as celebrações de seus 20 anos de existência com a inauguração de três novas instalações artísticas. As obras que agora enriquecem o acervo são

Contraplano

, de Lais Myrrha;

Dupla Cura

, de Dalton Paula; e

Tororama

, de Davi de Jesus Nascimento. Reconhecido como o maior museu a céu aberto da América Latina, o Inhotim abriga uma vasta coleção de trabalhos de artistas brasileiros e internacionais, além de uma exuberante diversidade botânica.

 

Júlia Rebouças, diretora artística do instituto, ressaltou que as três criações convergem para um dos pilares fundamentais do Inhotim: a interconexão entre arte, natureza e educação.

 

Cada um ao seu modo, vão repercutir o que é esse território, qual a relação do visitante com esse espaço, questões contemporâneas importantes. Elas vão revisitar momentos que muitas vezes estão ocultos na nossa história mais recente.


Rebouças enfatizou que os projetos recém-inaugurados estabelecem um diálogo com o vasto acervo que foi construído ao longo das duas décadas de história do instituto.

 

São trabalhos que se articulam com esse enorme texto que está sendo posto aqui há 20 anos. Cada obra é uma ideia nova que a gente adiciona a esse texto que vai escrever a narrativa do Inhotim.


 

A Escultura Monumental Contraplano

 

A obra

Contraplano

, de Lais Myrrha, está situada em um dos pontos mais elevados de Inhotim. Esta escultura monumental estabelece uma conexão com o edifício projetado por Oscar Niemeyer na Praça da Liberdade, na capital mineira. Confeccionada com lâminas de concreto armado e colunas de aço inoxidável, materiais típicos da arquitetura moderna, a instalação se projeta sobre os jardins do museu, a mata circundante e os vestígios de cavas de mineração nas proximidades.

 

O título da obra sugere um reflexo da paisagem que foi alterada pela atividade mineradora. A artista mineira Lais Myrrha expressou seu desejo de incentivar uma reflexão sobre a relação da arquitetura com a paisagem, o tempo, a natureza, as montanhas e a mineração.

 

Até que ponto as tecnologias modernas também influenciaram nessas formas de construção? A topografia, as cavas de mineração, como isso aparece nesse desenho da obra? Vai depender muito do repertório de cada visitante.


Paola Prates, psicóloga de 29 anos residente em Belo Horizonte, que fazia sua quarta visita a Inhotim, teve seu primeiro contato com o trabalho de Lais Myrrha.

 

Achei uma obra muito interessante, porque está posicionada próximo à mineração e eu acho que ela dialoga muito com isso. É uma obra que causa conforto porque, quando se está aqui dentro, você sente o frescor e o acolhimento, mas, ao mesmo tempo, você também olha para a mineração e lembra o que ela é capaz de fazer.


 

A Exposição Dupla Cura

 

A Galeria Mata, uma das construções pioneiras do Inhotim, acolhe

Dupla Cura

, uma exposição de longa duração de Dalton Paula. A mostra apresenta aproximadamente 120 obras do artista brasiliense, que reside e trabalha em Goiânia. Este é o conjunto mais extenso de suas criações já exibido no Brasil, incluindo pinturas, fotografias, vídeos e instalações que exploram temas como ancestralidade, memória e a celebração da cultura afro-brasileira.

 

A curadora Beatriz Lemos esclareceu que o nome da exposição faz alusão a um "pacto espiritual" que a atravessa. Segundo ela, o caráter dual, associado à devoção a São Cosme e São Damião, "manifesta-se no entendimento de que o fortalecimento individual é indissociável do bem-estar comunitário".

 

Dalton Paula revelou que a reflexão sobre a memória é um dos aspectos que mais o atraem em seu trabalho.

 

Aqui a gente vai se deparar com obras de 1999, com questões iniciais, e obras feitas no decorrer do tempo que têm um aprofundamento. Eu vejo como uma espécie de oráculo que fiz desse passado e aponta possibilidades de presente e de futuro. Quando a gente mostra ao público, principalmente, as futuras gerações, é algo muito importante.


Marcos Soares, um engenheiro de som de 40 anos, morador da capital mineira, que já visitou Inhotim seis vezes, foi conferir o trabalho de Dalton Paula.

 

Curti muito os desenhos, as pinturas, a expressão gráfica dele é bem rica. O processo de construção da arte dele é bem interessante de acompanhar. Abre uma nova forma de vida que eu nunca teria a chance de vivenciar se não fosse vendo uma exposição como essa do Dalton.


 

A Instalação Tororama

 

Próxima à obra

Contraplano

, a Galeria Nascente abriga a instalação

Tororama

, do artista Davi de Jesus Nascimento, natural de Pirapora, no norte de Minas Gerais, onde ainda reside. O espaço expõe três pinturas e um vídeo gravado nas Cavernas do Peruaçu, também em Minas Gerais. A instalação também inclui carrancas criadas pelo Mestre Expedito, uma figura proeminente da arte popular, que não produzia peças novas há uma década.

 

Conforme explicado pelo curador Deri Andrade, o nome da instalação é uma expressão presente no conto

A Terceira Margem do Rio

, de João Guimarães Rosa, que "aborda a relação do protagonista com um curso d'água".

 

O trabalho de Davi está totalmente relacionado ao Rio São Francisco, a partir de uma pesquisa voltada para sua família que mergulha nesse rio. É um projeto completamente imersivo, que traz vídeo performance e uma paisagem sonora.


Davi compartilhou que provém de uma linhagem de lavadeiras, pescadores, marceneiros e mestres carranqueiros.

 

A permissão do que eu faço vem por meio desse curso d'água que é o Rio São Francisco e da energia da minha mãe que morreu afogada em 2013. Esse ambiente que criei é de onde eu venho, da comunidade à beira do rio, do meu pai pescador.


Ana Paula Vieira do Nascimento, irmã de Davi, de 36 anos, visitou a instalação e sentiu que ela resgatou memórias de toda a vivência familiar desde a infância.

 

Nossa infância foi sempre dentro do rio. Somos barranqueiros e me remeteu muito à memória da nossa mãe que está presente nessa exposição.


 

Sobre o Instituto Inhotim

 

O Instituto Inhotim está localizado no município de Brumadinho, a 60 quilômetros da capital Belo Horizonte. A organização é uma entidade sem fins lucrativos, que se mantém por meio de doações de indivíduos e empresas, tanto diretas quanto através de leis de Incentivo à Cultura (federal e estadual), além da venda de ingressos e da organização de eventos.

 

Sua concepção inicial remonta à década de 1980, idealizada pelo empresário mineiro Bernardo de Mello Paz, e foi efetivamente fundado em 2006, em uma antiga fazenda com solo rico em ferro. Sua localização estratégica, entre os biomas da Mata Atlântica e do Cerrado, e as paisagens deslumbrantes que se estendem por 140 hectares de área de visitação, proporcionam aos visitantes uma experiência singular que integra arte e natureza. O acervo conta com cerca de 1.862 obras, criadas por mais de 280 artistas de 43 países, exibidas tanto ao ar livre quanto em galerias. O Instituto também abriga um Jardim Botânico com mais de 4,3 mil espécies botânicas raras, provenientes de diversos continentes.

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