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Violência agrária: assassinatos dobram e trabalho escravo cresce no campo

Relatório da CPT revela aumento de mortes e resgates de trabalhadores rurais, mesmo com queda geral nos conflitos no Brasil.

27/04/2026 às 14:52
Por: Redação

A violência no campo brasileiro atingiu um patamar alarmante em 2025, com o número de assassinatos duplicando em relação ao ano anterior, totalizando 26 vítimas entre trabalhadores e povos tradicionais. Apesar de uma queda geral de 28% nas ocorrências de conflitos, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) revelou, nesta segunda-feira (27), na 40ª edição de seu relatório “Conflitos no Campo Brasil”, que os casos de trabalho análogo à escravidão também registraram alta, com 1.991 pessoas resgatadas.

 

Em 2024, foram registradas 13 mortes, que passaram para 26 no ano seguinte. A maior parte dessas vidas perdidas, 16 no total, concentrou-se na região da Amazônia Legal. Os estados do Pará e Rondônia contabilizaram sete assassinatos cada, enquanto o Amazonas registrou dois.

 

“Esses números revelam o avanço de um projeto histórico de expansão colonial e capitalista sobre a Amazônia, que continua atingindo e transformando os povos e territórios inteiros em alvos de expropriação e extermínio”, analisa a integrante da Articulação das CPTs da Amazônia Larissa Rodrigues.
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Larissa Rodrigues também pontuou que o cenário é agravado pela formação de um "consórcio" entre grilagem, o crime organizado, setores do Estado e agentes privados, que se unem para invadir terras públicas e áreas de proteção ambiental.

 

O relatório da CPT aponta os fazendeiros como os principais responsáveis pelos assassinatos. De um total de 26 casos, 20 tiveram a participação de fazendeiros, atuando tanto como mandantes quanto como executores dos crimes.

 

O período entre 2024 e 2025 também foi marcado por um aumento em outras formas de violência. O número de prisões subiu de 71 para 111, os casos de humilhação saltaram de cinco para 142, e as ocorrências de cárcere privado passaram de apenas um para 105.

 

“A alta dos casos de humilhação e cárcere, por exemplo, se dá pela ação arbitrária da Polícia Militar do estado de Rondônia, que, em novembro de 2025, no contexto da Operação Godos, interrompeu uma reunião pública com cerca de 100 famílias sem terra, despejadas de seus acampamentos, e servidores do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar”, analisa o documentalista do Centro de Documentação Dom Tomás Balduino (Cedoc/CPT) Gustavo Arruda.
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Ele ainda acrescentou que o crescimento no número de prisões decorre de ações específicas de forças estatais contra comunidades. Mencionou como exemplos a prisão de aproximadamente 24 povos originários da Terra Indígena (TI) Barra Velha pela polícia da Bahia, e as operações da Polícia Militar de Rondônia que perseguiram membros da Liga dos Camponeses Pobres (LCP).

 

Tipos de Conflitos e Vítimas

 

Ao analisar a totalidade dos conflitos, a pesquisa detalha que a violência por terra representa a maior parcela, com 75% dos casos (1.186 ocorrências). Em seguida, aparecem os conflitos trabalhistas, com 10% (159 casos), os conflitos pela água, com 9% (148 casos), e as ações de acampamentos, ocupações e retomadas, correspondendo a 6% (100 casos).

 

Entre os incidentes mais frequentes relacionados à violência na terra, destacam-se a invasão, com 193 casos, a contaminação por agrotóxicos, com 127 ocorrências, e a pistolagem, com 113 registros. As populações mais afetadas por essa violência foram os povos indígenas, com 258 ocorrências, os posseiros, com 248, os quilombolas, com 244, e os povos sem-terra, com 153.

 

Os principais agentes que provocaram violências no eixo da terra são os fazendeiros, responsáveis por 515 casos, seguidos pelos empresários, com 180, o governo federal, com 114, e os governos estaduais, com 85.

 

Nos conflitos pela água, os principais motivos incluíram a resistência da população rural contra a destruição ou poluição, com 1034 ocorrências, o não cumprimento de procedimentos legais, com 754, a diminuição do acesso à água, com 425, e a contaminação por agrotóxicos, com 129.

 

As comunidades indígenas foram as mais atingidas pelos conflitos hídricos, com 42 ocorrências, seguidas pelos quilombolas, com 24, pequenos agricultores, com 20, e ribeirinhos, com 17.

 

Os principais agentes causadores de violência relacionada à água foram as mineradoras, com 34 casos, os empresários, com 29, os garimpeiros, com 26, os fazendeiros, com 23, e as usinas hidrelétricas, com nove.

 

Aumento de Resgates por Trabalho Escravo

 

O documento da CPT também trouxe dados preocupantes sobre o trabalho escravo ou análogo à escravidão. Houve um aumento de 5% nos casos, totalizando 159 ocorrências em 2025, e um crescimento de 23% no número de trabalhadores resgatados dessa condição, que chegou a 1.991.

 

Um dos destaques do levantamento foi a situação na construção de uma usina em Porto Alegre do Norte, no Mato Grosso, onde 586 pessoas foram resgatadas. Esses trabalhadores eram aliciados nas regiões Norte e Nordeste do Brasil e submetidos a condições degradantes, como quartos precários e superlotados, alimentação inadequada e frequente falta de água e energia.

 

As atividades econômicas que mais concentraram trabalhadores resgatados foram: construção de usinas (586), lavouras (479), cana-de-açúcar (253), mineração (170) e pecuária (154). A CPT ressalta que esses setores, especialmente lavouras e pecuária, historicamente apresentam os maiores índices de trabalho escravo no país.

 

Nova Ferramenta de Monitoramento

 

Nesta mesma segunda-feira, a CPT lançou o Observatório Socioambiental, uma iniciativa desenvolvida em parceria com o Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN). Essa plataforma da sociedade civil tem como objetivo reunir e sistematizar dados abrangentes sobre violações de direitos humanos, desmatamento e a expansão da agricultura industrial no Brasil, cobrindo o período de 1980 a 2023.

 

Os responsáveis pelo projeto informaram que o observatório disponibilizará em um ambiente digital interativo informações de diversas fontes, que serão cruzadas e apresentadas de forma segmentada. Isso permitirá aos usuários visualizar a correlação direta, por estados e municípios, entre o avanço da produção de commodities e o surgimento de conflitos socioambientais em todo o território nacional.

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