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Unesco aponta papel vital de áreas protegidas para pessoas e ambiente

Estudo mostra que áreas protegidas pela Unesco armazenam carbono e concentram biodiversidade global

21/04/2026 às 17:27
Por: Redação

Um relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) em Paris, nesta terça-feira (21), evidencia a importância dos sítios sob sua proteção para a sociedade e a preservação ambiental em escala global.

 

No Brasil, entre os espaços protegidos destacados pelo documento, estão o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, incluído na lista do Patrimônio Mundial da Unesco durante a 46ª sessão do Comitê do Patrimônio Mundial em Nova Délhi, na Índia, em julho de 2024, e o Parque Nacional de Iguaçu, que passou a integrar a mesma lista em 1986.

 

A Unesco detalha que a área protegida pelo Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses possui uma diversidade notável, composta por mais de 2.000 espécies de plantas, cerca de 400 espécies de aves e possivelmente até 80 mamíferos, além de inúmeras espécies de invertebrados. Segundo informações do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, nesse parque são encontradas quatro espécies ameaçadas de extinção: o guará (Eudocimus ruber), a lontra-neotropical (Lontra longicaudis), o gato-do-mato (Leopardus tigrinus) e o peixe-boi-marinho (Trichechus manatus). Estima-se ainda que a região abriga aproximadamente 133 espécies de plantas, 112 espécies de aves e pelo menos 42 espécies de répteis.

 

Indicadores de estabilidade nessas regiões

O levantamento aponta que, apesar de as populações de animais selvagens terem registrado redução de 73% em todo o mundo desde 1970, nos territórios que contam com proteção da Unesco, esses grupos permaneceram praticamente estáveis. Entre esses locais, um quarto está situado em áreas pertencentes a povos indígenas, sendo registradas mais de mil línguas nesses territórios.

 

No relatório intitulado People and Nature in Unesco Sites: Global and Local Contributions (Comunidades e natureza nos Sítios da Unesco: contribuições locais e globais), a instituição faz uma análise inédita de todas as categorias que envolvem Sítios do Patrimônio Mundial, Reservas da Biosfera e Geoparques Mundiais, considerando-os como uma única rede. No total, são mais de 2.260 sítios, que juntos somam uma área superior a 13 milhões de quilômetros quadrados, dimensão maior que a soma dos territórios da China e da Índia.

 

Resultados positivos para pessoas e biodiversidade

O diretor-geral da Unesco, Khaled El-Enany, avaliou que os sítios protegidos pela entidade geram efeitos positivos tanto para a população quanto para o ambiente natural.

 

“Nesses territórios, as comunidades prosperam, o patrimônio da humanidade perdura e a biodiversidade é preservada, enquanto se degrada em outros locais. O relatório mensura o valor global e as contribuições desses sítios e revela o que podemos perder se eles não forem priorizados”.


 

De acordo com El-Enany, o documento serve como um apelo para que se aumente o grau de compromisso e para que os sítios da Unesco sejam reconhecidos como recursos estratégicos no enfrentamento das mudanças climáticas e na contenção das perdas de biodiversidade. O diretor-geral defende o investimento imediato na proteção dos ecossistemas, das culturas e dos modos de vida, visando também às próximas gerações.

 

Situações de pressão e ameaças crescentes

Segundo o relatório, os sítios da Unesco abrigam mais de 60% das espécies catalogadas no planeta, sendo que cerca de 40% dessas espécies não existem em nenhum outro lugar do mundo. Essas áreas armazenam aproximadamente 240 gigatoneladas de carbono, volume equivalente a quase vinte anos das emissões globais atuais se todo esse carbono fosse liberado.

 

O documento esclarece que cada gigatonelada de carbono representa um bilhão de toneladas. Apenas as florestas presentes nos sítios reconhecidos pela Unesco são responsáveis por aproximadamente 15% do carbono captado pelas florestas em todo o planeta a cada ano.

 

Ainda assim, a Unesco alerta que, apesar da relevância mundial, grande parte desses sítios está submetida a pressões elevadas. Estima-se que quase 90% enfrentam altos níveis de estresse ambiental. Nos últimos dez anos, os riscos associados ao clima aumentaram 40% nessas localidades.

 

O relatório enfatiza que mais de um quarto dos sítios da Unesco pode atingir limites críticos até 2050, com efeitos irreversíveis. Caso não sejam adotadas medidas mais contundentes, as consequências incluem desde o desaparecimento de geleiras e colapso de recifes de coral até deslocamento de espécies, intensificação do estresse hídrico e transformação das florestas de sumidouros em fontes emissoras de carbono.

 

Relação entre povos, cultura e ecossistemas

A Unesco ressalta a forte ligação entre a natureza e as comunidades que vivem nos sítios sob sua proteção, que abrigam em torno de 900 milhões de pessoas, equivalente a aproximadamente 10% da população mundial.

 

“Mais de mil línguas estão documentadas nos sítios da Unesco, e ao menos 25% deles abrangem terras e territórios de povos indígenas”.


 

Nas regiões da África, do Caribe e da América Latina, esse percentual se aproxima de 50%. A análise sobre a produção econômica dessas áreas e suas adjacências indica que cerca de 10% do Produto Interno Bruto global são gerados nesses territórios.

 

O relatório indica também que medidas implementadas no presente podem reduzir de maneira significativa os riscos futuros: cada grau Celsius de aquecimento evitado poderá diminuir pela metade o número de sítios da Unesco expostos a grandes perturbações até o final deste século.

 

O potencial desses sítios como instrumento de política climática ainda é pouco aproveitado, de acordo com o documento. Embora 80% dos planos nacionais focados em biodiversidade incluam os sítios da Unesco, apenas 5% das estratégias nacionais de clima fazem o mesmo.

 

A recomendação da Unesco é o fortalecimento das ações com base em quatro frentes principais: restauração de ecossistemas para aumento da resiliência; promoção do desenvolvimento sustentável por meio do reforço da cooperação entre países; maior integração dos sítios da Unesco nas agendas climáticas globais; e implantação de governança mais participativa com povos indígenas e comunidades locais.

 

Experiências de conservação e prosperidade conjunta

A Unesco afirma que essas áreas sob sua proteção evidenciam que a convivência entre seres humanos e a natureza pode ser harmônica e vantajosa para ambos. Entre os exemplos apresentados estão a estabilização de populações de animais selvagens nesses territórios, ao contrário da tendência mundial de declínio, e resultados positivos em ações de conservação, como a recuperação de populações de gorilas-das-montanhas em áreas de conflitos armados. Esses exemplos mostram o que é possível alcançar quando a proteção é contínua e conta com o envolvimento das comunidades locais.

 

O relatório foi elaborado em colaboração com mais de vinte instituições de pesquisa reconhecidas internacionalmente e ressalta a necessidade de ampliar o objetivo de prosperidade compartilhada entre população e natureza. O documento destaca que os sítios da Unesco devem ser reconhecidos não apenas como áreas de conservação, mas como ativos estratégicos para a superação de desafios ambientais e sociais no mundo todo.

 

“Investir na sua proteção hoje significa salvaguardar, para as gerações futuras, ecossistemas insubstituíveis, culturas vivas e os meios de subsistência de centenas de milhões de pessoas”, conclui o documento.


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