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Exposição na Rio Fashion Week evidencia o carnaval como alta-costura

Evento reúne 50 figurinos de Henrique Filho e destaca o valor artístico do carnaval no circuito da moda.

16/04/2026 às 22:39
Por: Redação

A cidade do Rio de Janeiro retoma em 2026 a realização de seu principal evento da moda após uma década de hiato, trazendo novidades para o calendário cultural. A Rio Fashion Week (RFW) apresenta a mostra 'A Alta Costura do Carnaval', ocupando uma área de 750 metros quadrados no Hub DW, localizado no Píer Mauá, na zona portuária da capital. A exposição fica aberta ao público até sábado, dia 18.

 

O acervo reúne cinquenta trajes completos e diversos adereços de cabeça, todos assinados pelo estilista Henrique Filho, reconhecido por seu trabalho com figurinos de carnaval há cinquenta anos. Entre as peças, destacam-se criações já exibidas por personalidades como Sabrina Sato, Xuxa, Anitta, Giovanna Lancellotti, Adriane Galisteu e Erika Januza. Além dos figurinos, a mostra inclui dezessete produções apresentadas em painéis fotográficos de cinco por seis metros, com registros feitos por Priscila Prade. O conceito da exposição foi desenvolvido por Milton Cunha, tendo curadoria do arquiteto e multiartista Gringo Cardia.

 

“Para mim é uma honra, depois de tantos anos construindo o meu nome e mostrando o meu trabalho. Eu não teria condição financeira de fazer isso nunca. Está sendo um presente depois de uma certa idade. Foi um presentão que Deus me deu”, afirmou Henrique Filho.


 

O evento propõe o reconhecimento do carnaval como forma legítima de alta-costura. Henrique Filho defende que o trabalho de criação de fantasias e figurinos para rainhas de bateria deve ser considerado dentro desse padrão de excelência em moda. Para o estilista, a iniciativa da Rio Fashion Week representa um resgate de justiça diante da relevância desse segmento artístico.

 

“Com certeza. É um orgulho muito grande para nós, que trabalhamos há muitos anos com isso. Para mim, é um reconhecimento muito grande. Não tenho nem palavras.”


 

Henrique Filho observa que, se no passado os principais nomes da alta-costura produziam coleções mais restritas, atualmente as criações dialogam com o universo do carnaval brasileiro. Ele cita estilistas internacionais como Valentino, Saint Laurent, Dior, Chanel e Givenchy, que marcavam presença com tecidos, bordados e pedrarias. Hoje, segundo Henrique, profissionais como Galliano utilizam elementos estruturais típicos do carnaval carioca.

 

“As coleções feitas pelos estilistas Valentino, Saint Laurent, Dior, Chanel e Givenchy eram alta-costura feita com tecido, bordado e pedraria. Hoje em dia, não. Você pega um Galliano, por exemplo, e ele usa a estrutura que o povo do carnaval sempre usou”, pontuou Henrique Filho.


 

O estilista declara sua predileção pelo universo do carnaval, ressaltando o desafio criativo de desenvolver fantasias arrojadas e exclusivas, distintas dos vestidos tradicionais confeccionados com rendas e babados.

 

O curador Gringo Cardia avalia que Henrique Filho tem a obra reconhecida, mas seu nome ainda permanece pouco divulgado. Para Cardia, a exposição deve impactar o público ao revelar o carnaval sob uma nova perspectiva cultural, salientando que a produção carnavalesca ainda carece do devido reconhecimento artístico.

 

“As pessoas veem o carnaval como evento, mas, na verdade, a maior Escola de Belas Artes do Brasil é o carnaval do Rio de Janeiro. O Henrique é um estilista de alta-costura dentro do carnaval, que estudou arquitetura na Escola de Belas Artes do Rio”, explicou Gringo Cardia.


 

Segundo o curador, muitos não percebem que o Rio de Janeiro abriga uma tradição de alta-costura em seu próprio território, comparável às maisons françaises. Ele acredita que a iniciativa pode despertar o interesse do mercado da moda para valorizar artesãos e estilistas locais. O título da exposição, de acordo com Cardia, tem o propósito de provocar uma reflexão sobre a equivalência entre a moda produzida para o carnaval e a alta-costura internacional.

 

“A gente sabe que haute couture é só em Paris, na França, mas ao iniciar um trabalho minucioso, uma roupa que demora meses para fazer, é o mesmo que eles fazem. Eu botei alta-costura para justamente provocar as pessoas a olharem e pensarem sobre isso.”


 

Gringo Cardia compara os grandes desfiles internacionais de nomes como Galiano ao espetáculo das escolas de samba, defendendo a necessidade de se criar um museu do carnaval na cidade do Rio de Janeiro para valorizar os criadores dessa produção artística. Ele destaca o papel de Milton Cunha, idealizador do projeto, como um historiador que reconhece a potência e criatividade da arte e da cultura local.

 

“Muito importante o Milton ter aberto os nossos olhos para isso. O Milton é um historiador e tem uma visão total de quão potente é a nossa arte e criatividade. Ele é um doutor em letras e história da arte”.


 

Trajetória de Henrique Filho e sua inserção no carnaval

 

Entusiasmado, Henrique Filho compartilha que, apesar de já ter participado de exposições no Baile do Copacabana Palace e realizado desfiles no Programa Hebe Camargo, a atual experiência na Fashion Week tem caráter único por integrar o circuito da moda nacional. Nascido em Bela Vista do Paraíso, no Paraná, Henrique iniciou sua trajetória produzindo decorações para bailes, criando fantasias para amigos e blocos de carnaval. Posteriormente, mudou-se para Campinas, em São Paulo, onde produziu fantasias para pessoas que participavam do carnaval carioca.

 

“Um grande amigo meu, que se vestia de mulher no carnaval, disse que eu tinha que conhecer o carnaval do Rio. Eu vim em 1984. Nunca mais saí, estou aqui até hoje.”


 

No início, Henrique trabalhou com alta-costura na loja Le Gotham, em Ipanema, onde aprendeu técnicas sofisticadas. Só mais tarde passou a criar fantasias para o carnaval, inicialmente em tom de brincadeira, junto a um grupo de quinze amigos que desfilavam na Banda da Carmem Miranda, para quem ele elaborava os figurinos.

 

A primeira cliente de maior destaque foi Luma de Oliveira, na época rainha de bateria da Caprichosos de Pilares. Para ela, Henrique confeccionou um corset que integrou a fantasia usada na avenida. A partir daí, seu trabalho passou a ser requisitado por outras celebridades, incluindo nomes como Valéria Globeleza, Piovani e Adriane Galisteu. Durante dez anos, também foi responsável pelos figurinos da comissão de frente da escola de samba Beija-Flor.

 

No mesmo período em que produzia para Luma de Oliveira, Henrique já criava figurinos para Xuxa. Sua primeira fantasia completa para uma escola de samba foi feita para um amigo que desfilava pela Portela. Atualmente, ele mantém produção contínua ao longo do ano, desenvolvendo looks para clientes que participam de bailes de carnaval, ensaios técnicos e demais eventos festivos.

 

A colaboração com Sabrina Sato já ultrapassa quinze anos, abrangendo figurinos para os carnavais do Rio e de São Paulo, além de criações para festas particulares, como o aniversário da apresentadora, celebrado em fevereiro do mesmo ano. Conforme explica o estilista, peças de grande complexidade demandam até seis meses para serem finalizadas. O ponto de partida costuma ser o próprio material, que inspira o desenho do figurino. Um exemplo é o vestido de Camila Pitanga, exibido no Baile do Copacabana, confeccionado inteiramente com cristais e pedras, cuja produção levou quase meio ano.

 

A secretária municipal de Turismo, Daniela Maia, ressalta que a retomada da Rio Fashion Week, depois de dez anos, proporciona ao público a oportunidade de conhecer uma exposição de alta-costura concebida por um estilista considerado brilhante, porém ainda pouco conhecido em âmbito nacional. Segundo ela, este é um momento de exibir ao mundo a autenticidade e o luxo presentes na moda do Rio de Janeiro e do Brasil.

 

Bordados manuais e bastidores da produção

 

Durante a visita à exposição, o público pode acompanhar de perto o trabalho de cerca de quinze bordadeiras do ateliê de Henrique Filho, que demonstram em tempo real as técnicas, precisão e dedicação exigidas em cada peça criada para o carnaval.

 

A cerimônia de abertura da Rio Fashion Week aconteceu na terça-feira, 14, com um desfile da Osklen no Palácio da Cidade, sede social da Prefeitura do Rio, em Botafogo, na zona sul. A programação foi oficialmente reintegrada ao calendário brasileiro de moda a partir da quarta-feira, dia 15, estendendo-se até o sábado, 18.

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