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Estudo revela aumento do risco de Guillain-Barré após infecção por dengue

Pesquisa mostra que risco de Guillain-Barré sobe até 30 vezes após dengue; prevenção é principal estratégia.

17/04/2026 às 00:37
Por: Redação

Pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz Bahia (Fiocruz) e da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres identificaram que indivíduos infectados pelo vírus da dengue apresentam probabilidade 17 vezes maior de desenvolver a Síndrome de Guillain-Barré (SGB) nas seis semanas subsequentes ao início dos sintomas. O risco é ainda mais expressivo nas duas primeiras semanas após a manifestação da dengue, podendo chegar a um aumento de 30 vezes.

 

Essas informações constam de estudo publicado na revista científica New England of Medicine, que analisou extensos bancos de dados do Sistema Único de Saúde (SUS) relativos a internações hospitalares, notificações de dengue e registros de óbitos.

 

Segundo os autores, para cada 1 milhão de pessoas com dengue, estima-se que 36 possam evoluir para SGB. Embora esse número seja considerado baixo em proporção, ele é relevante nas condições de recorrência de epidemias no país, conforme ponderam os pesquisadores responsáveis pelo levantamento.

 

A SGB é caracterizada como complicação neurológica considerada rara, mas de potencial gravidade. No período de 2023 a 2024, a análise dos dados do SUS identificou mais de 5 mil internações hospitalares por SGB. Dentre esses casos, 89 registros ocorreram logo após os pacientes apresentarem sintomas de dengue.

 

O Brasil enfrenta epidemias frequentes de dengue, e, em 2024, foram contabilizados mais de 6 milhões de casos prováveis em todo o território nacional. Mundialmente, a dengue foi registrada em 14 milhões de pessoas apenas em 2024, demonstrando rápida expansão da doença transmitida por mosquitos.

 

O levantamento da Fiocruz alerta para a necessidade de gestores públicos de saúde incorporarem a SGB como possível complicação pós-dengue nos protocolos de vigilância epidemiológica. O estudo recomenda que, em momentos de surtos de dengue, as equipes de saúde estejam preparadas para identificar rapidamente sinais como fraqueza muscular e disponibilizar leitos de UTI e suporte ventilatório adequados. Além disso, aponta para a importância de estratégias de vigilância ativa para SGB nas semanas subsequentes ao pico de casos de dengue.

 

“Durante surtos de dengue, sistemas de saúde devem ser preparados para identificar precocemente casos de fraqueza muscular e dispor de leitos de UTI e suporte ventilatório. Estratégias de vigilância ativa de SGB devem ser acionadas nas semanas seguintes ao pico de casos de dengue”, alertam os pesquisadores.


 

De acordo com os especialistas da Fiocruz, essas descobertas também servem para orientar profissionais de saúde, como médicos, enfermeiros e neurologistas, a considerarem a hipótese de SGB em pacientes que tenham apresentado dengue nas seis semanas anteriores e que passem a relatar sintomas como fraqueza nas pernas ou sensação de formigamento.

 

O diagnóstico precoce de SGB é considerado fundamental, visto que os tratamentos disponíveis, como imunoglobulina ou plasmaférese, apresentam melhores resultados quando iniciados rapidamente.

 

Os autores do estudo aconselham a ampliação da notificação de casos de SGB associados à dengue e orientam a comunicação imediata à vigilância epidemiológica municipal ou estadual em situações de doença neurológica invasiva causada por arbovírus.

 

Atualmente, ainda não existe tratamento antiviral específico para a dengue. O manejo clínico é pautado em hidratação e suporte ao paciente. Por essa razão, as estratégias de prevenção, com destaque para o enfrentamento ao mosquito Aedes aegypti e a vacinação, são apontadas como as medidas mais eficazes para evitar a doença e suas complicações.

 

A vacinação contra a dengue possui potencial para reduzir expressivamente o número de casos registrados e, consequentemente, diminuir a quantidade absoluta de manifestações graves como a Síndrome de Guillain-Barré.

 

“Enquanto não tivermos um tratamento antiviral eficaz contra a dengue, a prevenção continua sendo a melhor estratégia. Nosso estudo reforça que evitar a infecção evita também complicações como esse tipo de paralisia potencialmente grave”, afirmam os autores.


 

Condições clínicas e histórico das arboviroses

 

A SGB ocorre quando o sistema imunológico do indivíduo ataca as células nervosas periféricas, que fazem a conexão entre o cérebro, a medula espinhal e o restante do organismo. O principal sintoma inicial costuma ser a fraqueza muscular nas pernas, podendo progredir em direção aos braços, ao rosto e, em situações mais graves, comprometer a função respiratória do paciente. Casos extremos podem evoluir para paralisia completa, exigindo auxílio de aparelhos para manter a respiração.

 

Embora a maior parte dos acometidos pela SGB se recupere, o processo de reabilitação pode se estender por meses ou anos, com possibilidade de sequelas permanentes em determinados casos.

 

A relação entre doenças transmitidas por mosquitos (arboviroses) e complicações de ordem neurológica já havia sido documentada durante a epidemia de Zika de 2015 e 2016. Naquele momento, observou-se tanto o surgimento de microcefalia em recém-nascidos como o aumento expressivo dos casos de SGB em adultos. Vale ressaltar que a dengue integra a mesma família viral do Zika.

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