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Projeto em Arraial do Cabo busca origem das tartarugas marinhas da região

Pesquisadores analisam DNA e comportamento das tartarugas para identificar rotas migratórias e orientar turismo responsável.

21/04/2026 às 15:54
Por: Redação

Em uma tarde de céu limpo e mar tranquilo, mergulhadores utilizando caiaques adentram as águas da Praia do Pontal, parte da Reserva Extrativista Marinha do Arraial do Cabo, situada na Região dos Lagos, no estado do Rio de Janeiro. Ao alcançarem aproximadamente 200 metros da faixa de areia, um dos mergulhadores se submerge e retorna em poucos minutos com uma tartaruga marinha. Logo após, outra tartaruga é capturada da mesma forma e levada de volta à embarcação.

 

A atividade, que atrai a presença de pescadores e banhistas atentos, não tem caráter predatório. Trata-se de um acompanhamento rigoroso da saúde desses répteis marinhos, integrado ao Projeto Costão Rochoso, realizado pela Fundação Educacional Ciência e Desenvolvimento, uma organização não governamental. O objetivo do projeto, que conta com o apoio da Petrobras, é reunir evidências científicas capazes de orientar a preservação e recuperação das áreas conhecidas como costões rochosos, localizadas entre o oceano e o continente.

 

O desafio colocado pelos pesquisadores é identificar a procedência das tartarugas que vivem em Arraial do Cabo, área reconhecida por concentrar o maior número de tartarugas-verdes do litoral brasileiro em regiões de alimentação. A bióloga Juliana Fonseca, uma das fundadoras do projeto, relata que as cinco espécies de tartarugas marinhas presentes no Brasil são encontradas em Arraial.

 

Etapas do monitoramento e coleta de dados

Após serem capturadas, as tartarugas são transportadas para a praia, onde passam por uma sequência de exames. Segundo Juliana Fonseca, o procedimento inclui pesagem, mensuração e coleta de tecido, semelhante a uma biópsia, permitindo a análise da origem dos animais.

 

“Apesar de ter muitas tartarugas aqui em Arraial, é a área com maior densidade de tartarugas-verdes do Brasil, a gente não sabe onde elas nasceram. Então é isso que a gente está tentando entender agora”, completa.


 

Ao determinar a procedência das tartarugas, os cientistas conseguem mapear os estoques populacionais que utilizam a região como área de alimentação. Dessa forma, torna-se possível compreender a ligação entre os locais onde ocorre a desova e os pontos de alimentação desses animais.

 

De acordo com Juliana Fonseca, a expectativa de vida dessas tartarugas gira em torno de 75 anos, dos quais aproximadamente dez são passados nas águas de Arraial do Cabo. Algumas permanecem na região por até 25 anos, retornando posteriormente à área de nascimento para reprodução. Ela explica que os indivíduos chegam ao litoral ainda pequenos e se desenvolvem ao longo dos anos na costa fluminense.

 

“São juvenis, recém-chegadas na costa. Depois que elas nascem, têm uma fase oceânica que dura, pelo menos, cinco anos. Então, com cerca de 25 centímetros, voltam para a costa. Em Arraial do Cabo, elas crescem e se desenvolvem muito bem, ou seja, engordam aqui com a oferta de alimentos.”


 

Registro individual e análise genética

O monitoramento abrange as espécies tartaruga-verde e tartaruga-pente em três praias de Arraial do Cabo: Praia dos Anjos, Praia Grande e Praia do Pontal, além da Ilha de Cabo Frio, todas localizadas dentro da reserva marinha. Os pesquisadores realizam medições de casco, nadadeiras, rabo e até das unhas dos animais.

 

“É um monitoramento para entender como a saúde das tartarugas marinhas está”, afirma Juliana.


 

Fotografias e softwares de computador são utilizados para identificação dos indivíduos. O método de identificação se baseia no registro fotográfico da cabeça da tartaruga, observando as placas presentes, que possuem formatos e tamanhos únicos para cada animal, funcionando como uma espécie de impressão digital.

 

Desde 2018, aproximadamente 500 exemplares já foram catalogados. Destes, 80 passaram por coleta de DNA, cujas amostras serão analisadas por meio de parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF). A previsão é de que os resultados sobre a origem genética estejam disponíveis em um prazo de até seis meses.

 

Comportamento em relação à presença humana

Uma segunda frente de pesquisa do Projeto Costão Rochoso consiste em determinar a distância mínima tolerada pelas tartarugas para a aproximação de pessoas. De acordo com os relatos da equipe, a atração exercida por esses animais faz com que sejam frequentes as tentativas de observação e, infelizmente, situações de assédio e captura, nas quais as tartarugas são retiradas da água, submetendo-as a situações de estresse.

 

“O que a gente faz é uma aproximação simulada, a gente vai se aproximando e vendo quando ela muda de comportamento. A gente vai ter uma média da distância mínima que essas tartarugas conseguem suportar”, conta sobre a metodologia.


 

Com base nos dados obtidos, será elaborada uma cartilha com orientações para a observação responsável de tartarugas marinhas, destinada ao turismo em Arraial do Cabo e em outras localidades do Brasil e do exterior.

 

Enquanto as tartarugas passam por pesagem, medição e coleta de tecidos, é comum que banhistas, inclusive crianças, se aproximem para observar o procedimento. Um dos turistas chega a perguntar se o animal está doente. Em situações como essa, os integrantes do projeto esclarecem que a iniciativa visa à preservação das espécies. Próximo ao local dos procedimentos, uma placa instalada no calçadão da praia alerta: “Proibido tocar nos animais marinhos”.

 

Exigências para a captura autorizada

A bióloga e pesquisadora Isabella Ferreira esclarece que, para capturar as tartarugas, é obrigatório possuir formação em áreas como veterinária, biologia ou oceanografia. Além disso, a execução das atividades demanda autorizações do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, e do Projeto Tamar, criado em 1980 e internacionalmente reconhecido pelas ações de conservação marinha.

 

Segundo Isabella, todas as etapas do trabalho, como captura, marcação e registro fotográfico, dependem de autorização prévia. Antes de cada expedição, a equipe informa os guardas ambientais e apresenta os documentos comprobatórios das permissões.

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