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CNC aponta que apostas online elevam dívidas e inadimplência das famílias

Estudo da CNC indica que apostas eletrônicas já causaram perda de 143 bilhões de reais ao varejo

29/04/2026 às 11:19
Por: Redação

Entre janeiro de 2023 e março de 2026, o endividamento de consumidores relacionado a apostas eletrônicas resultou em uma perda de 143 bilhões de reais para o comércio varejista, segundo avaliação da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). A quantia corresponde ao montante das vendas do varejo no Natal de 2024 e 2025 somados.

 

Durante esse período, os brasileiros destinaram mais de 30 bilhões de reais por mês a plataformas de apostas online. Esse gasto, apontado pela CNC como fonte de entretenimento, impactou negativamente o orçamento familiar, comprometendo a capacidade de manter pagamentos em dia e levando, de acordo com estimativas da entidade, cerca de 270 mil famílias à chamada inadimplência severa, caracterizada por atrasos superiores a 90 dias nas dívidas.

 

Em análise apresentada pelo economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, em Brasília, foi destacado que a inadimplência gerada pelas apostas online afeta tanto o comportamento de consumo quanto as vendas do varejo. Segundo o economista, diante de dificuldades financeiras, famílias passam a reduzir ou até eliminar despesas consideradas não essenciais e, em alguns casos, até essenciais.

 

“Podem deixar de trocar de celular ou podem deixar de comprar uma peça de vestuário por causa de agravamento da sua dívida”, exemplificou Bentes, durante a apresentação dos dados econométricos, com base em informações produzidas pela própria CNC e pelo Banco Central.


 

De acordo com a CNC, os efeitos das apostas online sobre o endividamento familiar variam conforme o perfil demográfico. Os segmentos considerados mais vulneráveis a esse impacto são homens, famílias com renda de até cinco salários mínimos, pessoas com 35 anos ou mais e aquelas com escolaridade de ensino médio ou superior. A confederação também alerta que mesmo famílias de renda mais alta podem ser afetadas, uma vez que, ao direcionar recursos para apostas, deixam de cumprir compromissos financeiros, o que pode resultar em atrasos e inadimplência.

 

“As bets afetam principalmente as famílias mais vulneráveis, aumentando seu endividamento global, enquanto para os mais ricos funcionam como substituto de outras formas de endividamento, embora também gerem inadimplência”, detalha a apresentação da entidade.


 

Entidade propõe regulação e proteção ao consumidor

 

No entendimento do presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, é necessária a adoção de políticas públicas para regular o funcionamento das plataformas digitais de apostas e ampliar a proteção aos consumidores. Em nota, ele ressaltou que as apostas online estão prejudicando a renda das famílias brasileiras e que o impacto desse mercado já se tornou uma questão macroeconômica.

 

“O impacto já deixou de ser pontual e se tornou macroeconômico. Precisamos discutir os limites desse mercado, especialmente no que diz respeito à publicidade e à proteção das famílias brasileiras.”


 

Segundo dados da CNC, atualmente 80,4% das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida. Esse índice é semelhante ao registrado no fim de 2022, quando atingia 78%. Entre 2019 e 2022, o percentual de famílias endividadas aumentou quase 20 pontos percentuais.

 

Setor de apostas e associações questionam metodologia

 

O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), que congrega plataformas de apostas eletrônicas legalizadas no país, encaminhou notificação formal à CNC solicitando maior transparência na metodologia utilizada e acesso total às bases de dados que fundamentaram o estudo sobre o impacto das apostas no endividamento das famílias.

 

De acordo com o IBJR, edições anteriores desse levantamento teriam partido de “premissa completamente desalinhada com os dados oficiais”. O instituto sustenta ainda que as conclusões apresentadas pela CNC são alarmistas e não condizem com as métricas oficiais disponíveis.

 

A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) também contestou os resultados divulgados pela CNC, afirmando que os números não correspondem às informações oficiais do governo e do setor. A entidade também declarou que a análise da CNC desconsidera a multiplicidade de fatores que levam ao endividamento das famílias brasileiras.

 

O posicionamento da ANJL foi incluído na matéria após as 21h29, ampliando as informações sobre a repercussão do estudo da CNC.

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