LogoPortal POA

Inhotim inaugura 3 obras e celebra 20 anos de arte e natureza

Museu a céu aberto em Brumadinho apresenta trabalhos de Lais Myrrha, Dalton Paula e Davi de Jesus Nascimento com foco em história e meio ambiente.

27/04/2026 às 11:31
Por: Redação

O Instituto Inhotim, localizado em Brumadinho, Minas Gerais, iniciou as celebrações de seus vinte anos de existência neste sábado (25) com a apresentação de três novas instalações artísticas. As obras inauguradas são Contraplano, da artista Lais Myrrha; Dupla Cura, de Dalton Paula; e Tororama, assinada por Davi de Jesus Nascimento. Reconhecido como o maior museu a céu aberto da América Latina, o complexo reúne um vasto acervo de criações de artistas nacionais e internacionais, complementado por uma exuberante coleção botânica.

 

A diretora artística do instituto, Júlia Rebouças, ressaltou que os três trabalhos estabelecem uma conexão com a missão principal do Inhotim: a integração entre arte, natureza e educação.

 

Cada um ao seu modo, vão repercutir o que é esse território, qual a relação do visitante com esse espaço, questões contemporâneas importantes. Elas vão revisitar momentos que muitas vezes estão ocultos na nossa história mais recente.

 

Júlia Rebouças enfatizou ainda que as peças recém-incorporadas dialogam com o extenso acervo que o instituto construiu ao longo de sua trajetória.

 

São trabalhos que se articulam com esse enorme texto que está sendo posto aqui há 20 anos. Cada obra é uma ideia nova que a gente adiciona a esse texto que vai escrever a narrativa do Inhotim.

 

A Escultura "Contraplano"

 

Situada em um dos pontos mais elevados do Inhotim, a monumental escultura Contraplano faz uma alusão ao edifício desenhado pelo renomado arquiteto Oscar Niemeyer na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte. Construída com lâminas de concreto armado e colunas de aço inoxidável, materiais emblemáticos da arquitetura moderna, a obra oferece uma visão panorâmica das áreas ajardinadas do museu, da mata circundante e de vestígios de cavas de mineração nas proximidades.

 

O nome da peça evoca a ideia de um espelhamento da paisagem, que foi alterada pela atividade mineradora. A artista mineira Lais Myrrha expressou seu desejo de provocar uma reflexão sobre a interrelação entre arquitetura e elementos como a paisagem, o tempo, a natureza, as montanhas e a mineração.

 

Até que ponto as tecnologias modernas também influenciaram nessas formas de construção? A topografia, as cavas de mineração, como isso aparece nesse desenho da obra? Vai depender muito do repertório de cada visitante.

 

Paola Prates, psicóloga de 29 anos residente em Belo Horizonte, que visitava o Inhotim pela quarta vez, teve seu primeiro contato com a criação de Lais Myrrha.

 

Ela considerou a obra "muito interessante" devido à sua localização próxima a áreas de mineração, o que, em sua opinião, estabelece um forte diálogo com essa realidade. Prates avaliou que a escultura proporciona uma sensação de conforto, frescor e acolhimento, mas, simultaneamente, ao observar a mineração, ela evoca a capacidade destrutiva dessa atividade.

 

Exposição "Dupla Cura"

 

A Galeria Mata, uma das primeiras estruturas do Inhotim, abriga a mostra de longa duração Dupla Cura, do artista Dalton Paula. Esta exposição inclui aproximadamente 120 trabalhos do artista brasiliense, que reside e desenvolve sua arte em Goiânia.

 

A coletânea representa o maior conjunto de obras de Dalton Paula já exibido no Brasil. Compreende pinturas, fotografias, vídeos e instalações que exploram temas como ancestralidade, memória e a valorização da cultura afro-brasileira.

 

Beatriz Lemos, curadora da exposição, esclareceu que o título Dupla Cura faz referência ao "pacto espiritual que a permeia". Ela explicou que a dualidade, associada à devoção a São Cosme e São Damião, "manifesta-se no entendimento de que o fortalecimento individual é indissociável do bem-estar comunitário".

 

Dalton Paula revelou que a reflexão sobre a memória é um dos aspectos que mais o fascina em seu trabalho.

 

Aqui a gente vai se deparar com obras de 1999, com questões iniciais, e obras feitas no decorrer do tempo que têm um aprofundamento. Eu vejo como uma espécie de oráculo que fiz desse passado e aponta possibilidades de presente e de futuro. Quando a gente mostra ao público, principalmente, as futuras gerações, é algo muito importante.

 

Marcos Soares, engenheiro de som de 40 anos, morador de Belo Horizonte e visitante assíduo do Inhotim com seis idas ao local, foi conferir a produção de Dalton.

 

Ele expressou grande apreço pelos desenhos, pinturas e a rica expressão gráfica do artista, além de considerar o processo de construção de sua arte bastante interessante. Soares comentou que a exposição "abre uma nova forma de vida" que ele não teria a oportunidade de vivenciar de outra maneira.

 

A Instalação "Tororama"

 

Próxima à obra Contraplano, encontra-se a Galeria Nascente, que acolhe a instalação Tororama, criada por Davi de Jesus Nascimento, natural e residente de Pirapora, no norte de Minas Gerais.

 

O ambiente expositivo é composto por três pinturas e um vídeo, este último gravado nas Cavernas do Peruaçu, também em Minas Gerais. A instalação é enriquecida ainda com carrancas produzidas pelo Mestre Expedito, uma figura proeminente da arte popular, que havia parado de criar novas peças há uma década.

 

O curador Deri Andrade informou que o nome da instalação, Tororama, é uma expressão que aparece no conto A Terceira Margem do Rio, de João Guimarães Rosa, abordando a "relação do protagonista com um curso d'água".

 

Andrade salientou que o trabalho de Davi Nascimento está intrinsecamente ligado ao Rio São Francisco, resultado de uma pesquisa familiar focada na relação de seus parentes com o rio. O projeto é descrito como "completamente imersivo", incluindo uma vídeo performance e uma paisagem sonora.

 

Davi Nascimento compartilhou que sua família é composta por lavadeiras, pescadores, marceneiros e mestres carranqueiros.

 

A permissão do que eu faço vem por meio desse curso d'água que é o Rio São Francisco e da energia da minha mãe que morreu afogada em 2013. Esse ambiente que criei é de onde eu venho, da comunidade à beira do rio, do meu pai pescador.

 

Ana Paula Vieira do Nascimento, irmã de Davi, de 36 anos, visitou a obra e sentiu-se remetida a todas as experiências vividas pela família desde a infância.

 

Ela afirmou que a infância deles foi "sempre dentro do rio", e que, como "barranqueiros", a exposição trouxe "muito à memória da nossa mãe que está presente nessa exposição".

 

Sobre o Instituto Inhotim

 

O Instituto Inhotim, um museu situado no município de Brumadinho, a uma distância de 60 quilômetros da capital Belo Horizonte, opera como uma organização sem fins lucrativos. Sua manutenção é viabilizada por meio de doações de pessoas físicas e jurídicas, sejam elas diretas ou facilitadas por leis de incentivo à cultura, tanto federais quanto estaduais, além da receita proveniente da bilheteria e da realização de eventos.

 

A concepção do projeto remonta à década de 1980, idealizada pelo empresário mineiro Bernardo de Mello Paz, e foi efetivamente inaugurado em 2006, em uma fazenda de solo ferroso na região.

 

Sua localização estratégica, que se encontra entre os biomas da Mata Atlântica e do Cerrado, aliada às paisagens exuberantes que se estendem pelos 140 hectares acessíveis à visitação, proporciona uma vivência singular que harmoniza arte e natureza.

 

O acervo do Inhotim é composto por aproximadamente 1.862 obras, criadas por mais de 280 artistas, representando 43 países. Essas peças são exibidas tanto ao ar livre quanto em galerias, em meio a um Jardim Botânico que abriga mais de 4,3 mil espécies botânicas raras, originárias de todos os continentes.

© Copyright 2025 - Portal POA - Todos os direitos reservados