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Redução da jornada 6x1 pode ampliar acesso das mulheres ao trabalho

Proposta que prevê dois dias de descanso semanal tramita em regime de urgência na Câmara

01/05/2026 às 22:06
Por: Redação

O debate sobre a extinção da escala de seis dias trabalhados para um de descanso semanal, conhecida como 6x1, ganhou força no cenário nacional e é considerado, segundo a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, como uma demanda contemporânea que pode facilitar a inserção de mulheres no mercado de trabalho. Ela afirmou que a alteração permitirá que esse público concilie melhor suas rotinas pessoais, familiares e comunitárias, além de promover avanços na saúde e nas relações sociais.

 

De acordo com a ministra, o fim desse regime proporcionará impactos positivos não apenas para as profissionais diretamente envolvidas, mas também para a economia e para as empresas. Na avaliação da gestora, a nova dinâmica contribuirá para a diminuição do absenteísmo – caracterizado por faltas, atrasos e saídas antecipadas –, além de criar condições para o aumento do consumo e do empreendedorismo, com mais tempo livre para atividades culturais, alimentação adequada, organização comunitária e negócios próprios.

 

Márcia Lopes concedeu entrevista à imprensa após participar de evento na sede do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), no Rio de Janeiro, onde a instituição anunciou o direcionamento de oitenta milhões de reais para apoiar projetos ligados ao trabalho do cuidado em áreas periféricas e ao fomento ao empreendedorismo feminino. Entre as iniciativas contempladas estão cozinhas comunitárias, lavanderias públicas e cuidadotecas.

 

Discussão legislativa sobre jornada e urgência do governo

A apreciação do tema ocorre no momento em que o Congresso Nacional avalia o Projeto de Lei 1838/2026, proposto pelo governo federal, que reduz o teto da jornada semanal de trabalho de quarenta e quatro para quarenta horas, garantindo dois dias de descanso remunerado sem prejuízo salarial. O governo federal solicitou urgência para a tramitação do projeto, que até o final da tarde da quinta-feira, 30, ainda dependia de despacho do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, para iniciar a análise na Casa.

 

Além do projeto de lei, duas Propostas de Emenda à Constituição (PEC 221/19 e PEC 8/25) também abordam o fim da escala 6x1 e tramitam simultaneamente na Câmara. No dia 29, foi instaurada uma comissão especial para discutir essas matérias.

 

Mulheres são as principais afetadas pela escala 6x1

Márcia Lopes sustenta que as mulheres representam o grupo mais afetado negativamente pela manutenção da jornada 6x1. Segundo a ministra, a estrutura social machista impôs a esse segmento, historicamente, a responsabilidade de exercer múltiplas jornadas: além do trabalho remunerado, assumem tarefas não remuneradas relacionadas à casa, aos filhos e aos estudos.

 

“Elas vão cuidar melhor da saúde, das relações familiares, territoriais. Eu não tenho dúvida que é uma exigência do nosso tempo o fim da escala 6x1”, disse.


 

“Não há dúvida disso”, afirma.


 

Ela detalhou que, ao concluir sua jornada formal, as mulheres frequentemente iniciam uma segunda ou até terceira jornada, dedicada aos cuidados domiciliares e à formação, além das atividades de cuidado com familiares e comunidade.

 

Márcia Lopes avalia que, ao eliminar a escala 6x1 e lutar por igualdade salarial, será possível ampliar significativamente as oportunidades de inserção profissional, acesso a melhores condições e ocupação de espaços de trabalho por mulheres, destacando, principalmente, o impacto positivo entre mulheres negras e residentes em regiões periféricas.

 

“Ao alcançar o fim da escala 6x1 e trabalhar pela igualdade salarial, as mulheres vão tendo muito mais chance de acessar o trabalho e de conquistar espaços e condições de trabalho melhores”, diz ela, enfatizando entre as beneficiadas as mulheres periféricas e negras.


 

Desigualdade de renda permanece no setor privado

Dados do 5º Relatório de Transparência Salarial e de Critérios Remuneratórios, divulgado pelo Ministério do Trabalho e Emprego em 27 de maio, apontam que as mulheres brasileiras ainda recebem, em média, 21,3% a menos que os homens no setor privado entre empresas com cem ou mais funcionários. Na prática, para cada mil reais recebidos por um homem, a mulher recebe setecentos e oitenta e sete reais.

 

A Lei nº 14.611, sancionada em julho de 2023, determina a obrigatoriedade de equiparação salarial entre homens e mulheres que ocupem a mesma função, exigindo que empresas com pelo menos cem empregados adotem medidas para garantir a igualdade salarial e publiquem informações sobre os vencimentos praticados.

 

Impactos econômicos da redução da jornada

Diversos levantamentos buscam dimensionar os efeitos da redução da jornada de trabalho no país. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a mudança pode comprometer a competitividade do setor industrial, estimando uma perda de setenta e seis bilhões de reais no Produto Interno Bruto (PIB) e um aumento médio de 6,2% nos preços.

 

A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) prevê que a redução da jornada eleve os custos da folha salarial em 21% e gere uma pressão inflacionária, com possibilidade de o repasse de preços ao consumidor atingir 13%.

 

Já um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), vinculado ao Ministério do Planejamento e Orçamento, indica que os custos decorrentes da transição para quarenta horas semanais seriam comparáveis aos impactos do reajuste do salário mínimo em anos anteriores, o que demonstraria capacidade do mercado de trabalho de absorver a medida.

 

Mobilização social e articulação política

Márcia Lopes, que também preside o Conselho Nacional de Direito da Mulher, relatou que entidades femininas mantêm diálogo com os presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre, buscando apoio para acelerar a aprovação do fim da escala 6x1.

 

“As mulheres são fortes, são mobilizadas e já estão fazendo isso”, disse.


 

Em suas palavras, ainda que haja resistência à proposta em alguns setores, a ministra acredita que a conquista desse novo direito se aproxima.

 

“Claro que tem posicionamentos contrários, isso faz parte da democracia, mas eu tenho impressão que, muito em breve, vamos conquistar mais esse direito no Brasil”, conclui.


 

Segundo Tereza Campello, diretora Socioambiental do BNDES, que esteve presente no evento, a mudança na escala 6x1 está diretamente relacionada à melhoria da qualidade de vida das mulheres. Ela ressaltou que a reivindicação representa a busca pelo direito ao cuidado pessoal e ao descanso no final de semana.

 

“A luta para que a gente mude essa situação da escala 6x1 é exatamente ter direito a se cuidar, ter direito ao fim de semana, ao autocuidado”, disse.


 

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