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Artistas exploram novas formas de expressar a essência de Brasília

A produção artística em Brasília revela interpretações inovadoras sobre a cidade, integrando mímica, música, moda e artes visuais.

21/04/2026 às 14:14
Por: Redação

Há 66 anos, durante o discurso inaugural da nova capital, Juscelino Kubitschek já admitia não conseguir expressar em palavras tudo o que sentia e pensava naquele momento que considerava o mais importante de sua trajetória pública. Décadas mais tarde, a busca por formas de representar Brasília permanece, agora em criações de artistas que, utilizando diferentes linguagens, investigam a complexidade da identidade da cidade e procuram retratá-la sem recorrer necessariamente à palavra escrita ou falada.

 

Entre esses criadores está o mímico Miqueias Paz, de 62 anos, que utiliza gestos e o silêncio como instrumentos para captar nuances da vida em Brasília. Chegando ainda criança à capital, Miqueias passou a dedicar-se ao teatro social na adolescência, frequentando grupos teatrais em Taguatinga a partir dos 16 anos, influenciado por trupes como o H-Papanatas, conhecidos por visitar a capital em seus primeiros anos. Sua atuação, marcada por apresentações em palcos e ruas, centra-se na vivência de migrantes, no cotidiano de quem reside em áreas periféricas e na luta por direitos sociais, tudo isso sem recorrer à fala, apenas com a expressividade do corpo e do olhar.

 

Durante os anos 1980, ele protagonizou os espetáculos "Sonho de um retirante" e "História do homem". Suas primeiras apresentações foram direcionadas a agentes da ditadura, que atuavam como censores realizando cortes e classificações nas obras. O artista destaca que sua atuação física acabou por torná-lo alvo de abordagens policiais, que ele caracteriza como microviolências, ocorridas devido à sua arte nas ruas e à abordagem intuitiva da mímica, baseada em suas próprias vivências de transporte coletivo lotado e dificuldades financeiras, elementos que passaram a nortear sua produção.

 

"Eu já começava a fazer mímica intuitivamente a partir das minhas histórias sociais: as coisas que eu vivia, que eu sentia, o ônibus apertado, a falta de grana. Esse passou a ser um eixo do meu trabalho", diz.


 

Em 1984, Miqueias ganhou repercussão ao celebrar, com o gesto de um coração feito na rampa do Congresso Nacional, o fim da ditadura militar, o que lhe conferiu reconhecimento entre integrantes de movimentos sociais e sindicatos. Atualmente, ele mantém o Mimo, um espaço teatral na comunidade 26 de setembro, em região periférica de Brasília, criado com o propósito de acolher artistas de rua da capital federal.

 

Ritmos e tradições reinventam símbolos culturais locais

 

A representação de Brasília também pode ser percebida na música, como no trabalho do grupo Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro, fundado pelo pernambucano Tico Magalhães. Inspirado pelo Cerrado e pelas histórias da capital, Magalhães criou o ritmo conhecido como samba pisado. A proposta era desenvolver uma tradição própria para Brasília, considerada por ele uma cidade inventada. Segundo Magalhães, a criação do samba pisado envolveu a elaboração de uma mitologia singular, com personagens e celebrações inéditos, além de um ritmo próprio, resultado de influências do cavalo marinho nordestino, do maracatu nação, do baque solto e do baque virado, além de outros ritmos agregados.

 

De acordo com Magalhães, Brasília foi construída sobre um território originalmente habitado por diversos povos indígenas, o que faz do local uma terra marcada por memórias e elementos encantados. Ele avalia ainda que o grupo Seu Estrelo incorpora características da cidade e contribui para a formação de novas tradições locais, tornando Brasília uma espécie de pequena diáspora dentro do Brasil.

 

“Quando você junta gente de muito lugar, a cidade começa a apresentar suas próprias tradições. O Seu Estrelo carrega a junção de tanta gente. A cidade inventa a gente e a gente inventa a cidade”.


 

Moda e arquitetura se encontram em coleções autorais

 

A influência da capital também se manifesta na moda, através de estilistas como Mackenzo, de 27 anos, oriundo de Samambaia, e Felipe Manzoli, de 29, natural de Planaltina. Ambos nasceram em regiões administrativas periféricas e transformam referências arquitetônicas de Brasília em peças de vestuário. Felipe, que aprendeu a costurar com a avó aos 10 anos, e Mackenzo, inicialmente músico, passaram a se inspirar nos cenários observados das janelas dos ônibus e nas histórias familiares ligadas à construção da cidade, como as tias baianas que trabalharam com Juscelino Kubitschek.

 

Para esses estilistas, criar roupas demanda conhecimentos semelhantes aos da arquitetura, levando em conta tanto superfícies retas quanto curvas. Eles consideram o corpo como um terreno a ser trabalhado, comparando as etapas da confecção de uma peça à engenharia envolvida no planejamento urbano. Para eles, Brasília é mais do que arquitetura; possui um aspecto quase mítico, reforçado pela experiência familiar e pela memória dos que participaram do processo de construção da cidade.

 

O trabalho desenvolvido por Mackenzo e Felipe é visto como uma homenagem às famílias deles e à grandiosidade do sonho original da capital, reconhecendo as dificuldades enfrentadas por quem concretizou esse projeto. As vestimentas criadas evocam lembranças de símbolos ligados à democracia, ao centro de decisões do país, a manifestações de protesto e à produção cultural. Os dois relatam que seguem uma lógica metódica e dramática ao buscar transformar elementos urbanísticos em coleções de moda.

 

Arquitetura inspira criações artísticas e vestuário

 

A arquiteta de formação e estilista Nara Resende, de 54 anos, também encontra nas formas e na geometria da cidade a base de seu processo criativo. Ela afirma que viver em Brasília, agora com sua própria marca, reforça a influência dessas referências, adquiridas desde a formação acadêmica. Nara relata que o cotidiano da cidade, marcado pelo contraste entre a arte presente nas ruas e o brutalismo das edificações, serve como fonte constante de inspiração. O ambiente urbano e a presença de pessoas circulando motivam suas criações.

 

Obras plásticas traduzem a vivacidade da capital

 

Na área das artes visuais, Isabella Stephan, de 41 anos, mantém uma produção voltada tanto para telas quanto para a estamparia. Ela declara que busca transmitir a essência de Brasília através das cores e que suas obras transitam entre o figurativo e o abstrato, exaltando temas ligados à alegria. Apesar de a cidade ser caracterizada pelo predomínio do branco e do concreto em suas construções, Isabella identifica e representa a diversidade de cores e a energia do movimento e da alegria presentes no cotidiano brasiliense. Inicialmente voltada à pintura sobre telas, sua produção expandiu-se para o vestuário, após a venda dos quadros.

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